A minha vida tem sido um rodopio de questões, vou não vou, tiro ou não tiro a licença, altero ou não altero as férias, vens ou não vens, ficas até ao fim ou não ficas, ….
e para ajudar à festa
estes estão de férias
e este olhos estão a milhares de kilometros de distância.
Com tudo isto fico mais sensível, e qualquer cabeça de alfinete torna as proporções de um pesado elefante.
Mas falta muito pouco para o elefante ser picado pelo alfinete e sair por aí a voar até o perder de vista.
Cheguei, porque tinha que chegar. Hoje a vontade não existia, nem para chegar nem para partir. Sinto-me triste, apática ,sem vontade de nada nem de ninguém. Sinto que andam dentro do meu corpo que puxam e me apertam as entranhas e me asfixiam. Assim que cheguei notaram, questionaram, insistiram ( como gostava de não ser assim, como gostava que a minha expressão não fosse o espelho do meu sentir), não os quero ouvir, fugi.
Hoje vou ficar aqui neste gabinete, sentada, tendo-me apenas por companhia e rezando para que a porta não se abra.
Um certo dia estava uma bela menina, numa praia muito fina, paraíso tropical. A apanhar sol, de barriga para o ar, encantada de ali estar bem longe de Portugal.
A sua paz, pensava ela coitada, que seria assegurada na longínqua paragem. Mas afinal acabou por descobrir que o pior estava para vir, às mãos da vida selvagem.
A certa altura, pareceu-lhe curial, fazer nu integral, já que a maré estava baixa. Tira o bikini, deita-se na areia quente, descontraí completamente, abre as pernas e relaxa.
Mas entretanto têm um favo a acordar, por um violento arfar, vindo da zona escondida. Em sobressalto, solta um grito assustada, estava a ser ameaçada por uma bicha perdida.
Constata então que o bichano era um ratinho amoroso pequenino, daqueles sem lei nem grei. Que se alojara por estar acalorado, num orifício arejado numa zona que eu cá sei.
A pobre aflita com tanta vicissitude, vai ao centro de saúde, ter com o doutor de serviço. Que lhe receita um queijinho de Azeitão - Deita-se , mete-o no chão, que a natureza trata disso -
Os roedores são uns animais de teimas entre duas guloseimas, escolhem sempre a comestível. Mas neste caso, a triste vitimizada, volta ao centro amargurada num pranto irreprimível.
Pergunta o médico - diga lá minha querida, vejo-a tão abatida, então já saiu o rato? – Responde a moça com voz mais que amargada,
- Não doutor, estou desolada, a bem dizer entrou um gato! –
A praia é linda, para mim é paraíso, perde a gente todo o ciso, fica a cútis encarnada. A água é boa, o sol esplendor, as areias do melhor, Só é pena a bicharada!
É tempo de reorganizar algumas gavetas cá de casa , por um motivo muito especial. Nessa tarefa reencontrei uma carta que me chegou às mãos há uns três anos atrás junto com um cd da Sara Tavares , lembrei-me que escrevi sobre isso num diário e decidi colocar aqui, pois este espaço serve sobretudo para um dia poder recordar como foram os meus dias.
Existem gestos que apesar de para nós serem “vulgares”, espontâneos, para outros podem ter uma importância nunca imaginada….
“ Cara monitora A. M. Talvez não seja esta a melhor forma de lhe agradecer a disponibilidade e atenção para comigo, sei que é o seu trabalho, mas para mim foi importante, por isso, peço e espero que aceite este gesto de profunda gratidão. Espero que um dia a sua voz a cantarolar alguma desta musicas, seja para alguém, tão importante quanto foi para mim ouvi-la e vê-la a cantar outras, são estes pequenos “grandes” prazeres que eu quero reaprender a viver. Esta também é a forma para de alguma forma lhe pedir desculpa, por alguma coisa que tenha feito ou dito que a tenha ofendido, tenho consciência que o fiz…desculpe. Espero nunca mais vê-la nas mesmas condições, mas terei o maior prazer se alguma contingência da vida nos fizer reencontrar. Bem-haja e felicidades “
Duvido que o J. tenha consciência que este seu “pequeno” grande gesto , tenha tido a importância de me relembrar ( naquele dia e sempre que por qualquer motivo me “desmotive”) que fiz a opção profissional certa … mesmo que isso por vezes me esgote.
Hoje escrevo, nunca mais o vi, nem no dia que a carta me chegou às mãos , foi deixada com o segurança para eu não poder recusar o presente, como estará o J? Será que reaprendeu o que tanto queria? Será que conseguiu dar um novo rumo à sua vida? Espero que sim , espero mesmo que sim!
Foi eu fazer não sei o quê ( eu sei, mas não interessa nada), a um sector do meu serviço quando vejo uma borboleta gigante, mas mesmo gigante, cinzenta escura ( que raio de bicho esquisito) na parede, pergunto à enfermeira se já tinha reparado na visita, o utente que estava no gabinete faz o barulho e o gesto de quem carrega uma caçadeira e aponta para a bicha sossegadinha na parede, ao que a enfermeira dá um grito: não faças isso deixa-a lá estar!
Virei costas e segui o meu caminho a rir.
Mas quem é que anda a apanhar sol a mais na cabeça? O Utente que faz o som e o gesto com uma caçadeira imaginária ou a enfermeira que diz para ele não disparar contra a borboleta?
Fim da tarde na A8 direcção sul-norte, na rádio o locutor anuncia para depois dos comerciais o tema Gaivota do Projecto Amália Hoje.
Mãe começa de imediato a cantar :Se uma gaivota viesse, trazer-me o céu deLisboa ,na versão fado tradicional, o filho resmunga e a mãe diz-lhe que vai dar essa musica a seguir e que ele gosta, afirma que não gosta. Ainda dá tempo de repetir o inicio da musica com a mesma entoação e começa a tocar na rádio a versão de “Hoje” ao que o filho diz muito depressa, deixa estar essa que gosto muito. Começam a cantar os dois e a avó torce o nariz à versão que nunca tinha ouvido, foi rápido o encantamento e em pouco tempo estavam os três em perfeita harmonia cantando : Que perfeito coração, morreria no meu peito, meu amor na tua mão, nessa mão onde perfeito bateu meu coração…Que perfeito coração, no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito meu coração...
Por uns momentos só me veio à cabeça que tinha acontecido alguma coisa má, pensei em “milhentas” coisas nos poucos segundos até ouvir a voz dela do outro lado da linha.
- Estavas acordada. - Estava mais ou menos, o que é que aconteceu??? -Era para te perguntar onde é que fica aquele bar aqui no Porto que fomos na outra vez. - F*d*ss***** Sónia! Assustaste-me!!! - Se estou no Porto só podia ser para perguntar uma coisa destas a esta hora. - E tu achas que a esta hora me lembrei que estavas no Porto? ( e mais umas quantas asneiras de seguida)….
Fiquei para aqui a tentar perceber porque é que pensamos sempre o mal primeiro? E porque é que a noite acentua ainda mais essa sensação.
Bem sei que a hora era tardia, mas se fosse alguma coisa de mal ela não teria enviado sms a perguntar se estava acordada.
Hoje dei com um utente que levava um envelope aberto na mão e ia com tal cuidado e atenção no que lá estava dentro que estranhei, é que geralmente os envelopes têm papeis dentro e mesmo que importantes não se estragam assim do pé para a mão. O que é que ele levava ali, o que era?
- Uma Joaninha !( voa, voa que o teu pai está em Lisboa)
“ …ela estava no gabinete e a Dr.ª pediu-me para a trazer para a rua…”
Temos ( ou tenho ) tendência para guardar o melhor para o fim, estou a escrever sobre comida mas se pensar bem aplicasse a tanta coisa. Mas voltando à comida acontece-me muitas vezes guardar por exemplo o coração da melancia e vem alguém e ...come!
Ora no meu trabalho isso já me aconteceu várias vezes com pacotes de batatas fritas, guardo as maiores para o fim e aparece sempre alguém a perguntar se pode tirar uma, e outra e lá se vai o que tão "preciosamente" estava a guardar. Hoje lá levei um pacotinho de batatas para acompanhar com um lombinho de “black pig” e umas rodelas de ananás, mas hoje não me apeteceu partilhar o melhor ,